quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Li hoje 04.10.2012
domingo, 15 de abril de 2012
26.01.2012
26.01.2012
Muitas vezes imagino
o que seria se não fosse
o que sou hoje.
Mas como ainda duvido
do que sou hoje,
não tenho resposta para
esse condicional.
Condicionada por um coração
que vive em função de.
Para fora e não para dentro.
Agora 26.04.2011
Agora
Agora o que vejo é um céu negro com uma ou outra estrela descoberta. Sei que já não estou no Algarve por isso mesmo. Pela falta de estrelas no céu. No Algarve atropelam-se, ansiosas como que querendo cativar o meu olhar com o seu brilho. Passámos pelo Alentejo e a paisagem colou-se ao meu olhar. Não o consegui desviar. A terra amarela e verde com suas árvores que nem chapéus de sol na areia dando sombra por quem lá passeie. O céu de mãos dadas à terra criando uma passagem suave entre o verde e o azul que misturados dão amarelo. Agora o que vejo é uma felicidade. O que sinto uma tranquilidade. O céu azul com rasgos brancos e laranja por alguém que quis agarrar o sol. O sol estava laranja, cheio de força, redondo e imponente. O sol rebolou por aqueles campos amarelos de girassol, ganhou a sua cor.
Agora o que sinto é um amor a crescer. Uma paixão.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A bicicleta
26.01.2012
(entre David e Bocas del Toro)
A bicleta na qual eu aprendi a andar era azul. Era do meu irmão. Os mais novos normalmente herdam as coisas dos mais velhos. Comigo passava-se o mesmo. De entre todas as coisas que herdei tanto do eu irmão como da minha prima (ambos mais velhos do que eu) lembro-me do que mais e menos gostei. O que mais gostei foi a bicicleta azul por ser a primeira e o que menos gostei foi o casaco de Inverno rosa-choc que jurei nunca vestir. A bicicleta tem na infância a mesma importância que a carta de condução na adolescência. Significa liberdade. A liberdade com que ansiamos desde que por volta dos cinco anos começamos a perceber as coisas e restrições são impostas: ‘não corras, olha que cais!’; ‘não faças isso, já te avisei, em casa conversamos!’; ‘não comes a salada não vais ao parque aquático depois de almoço’; ‘não deixes cair olhas que estragas’. De repente, a nossa infância vira exclamação atrás de outra, mas todas começadas pela mesma palavra: ‘não’!
Imaginem agora quando aprendemos a andar de bicicleta e quando podemos ir à rua sozinhos andar. Até podemos voltar a casa com os calções rasgados, os pés e mãos cheios de óleo, os joelhos em ferida e a t-shirt branca agora castanha ‘eu bem te disse para não levares essa t-shirt branca que se suja!’, mas ao menos no tempo que estivemos na rua ninguém nos exclamou nada. Esse tempo na rua não era mais do que uma afirmação sem exclamções. Existiam apenas vírgulas aqui e ali em forma de ‘oitos’ que orgulhosamente tinhamos aprendido a fazer no dia anterior (a mim foi o meu avô que me ensinou a fazer ‘oitos’) ou interrogações ‘será que consigo saltar aquela rampa sem cair do outro lado?’.
A minha bicicleta não era BMX (essa veio mais tarde), era azul e antiga. Estava guarda na arrecadação até que eu aprendesse a andar. Por esta altura já o meu irmão tinha outra, porque a azul era muito pequena. Aliás, ainda hoje me interrogo se onde aprendi a andar foi na bicicleta azul ou na bicicleta preta do meu avô (uma bicicleta que me parecia gigante na altura) na casa dos meus avós, numa aldeia chamada Bóco, ao pé de Aveiro.
Lembro-me de nas traseiras do meu prédio todos os meninos do bairro irem andar de bicicleta (quando ainda não me aventurava, para quem conhece os Olivais, até ao Vale do Silêncio ou até ao antigo Pingo Doce) e de eu estar sempre atrás deles por ser a mais nova. Os meus vizinhos tinham uma bicleta que eu adorava porque era uma bicicleta como mais ninguém tinha: vermelha e com o assento para duas pessoas! Um só assento onde cabiam duas pessoas. Era o mais parecido com uma moto que eu alguma vez já tinha visto de perto. Ansiava por experimentar essa bicileta, mas era a mais nova e, principalmente, nessas idades ninguém escuta os mais novos. Nunca a experimentei e progressivamente perdi o interesse. Concentrei-me nos meus ‘oitos’ na difícil calçada das traseiras do prédio, a famosa calçada de Lisboa, imprópria para bicicletas pequenas, patins e saltos alto. Quando se tem sete anos e os outros onze anos, já nos podemos dar por sortudos o facto de termos a nossa própria bicicleta e de podermos andar na rua.
Nunca fui de bicicleta para a escola porque havia demasiadas estradas com carros e não tinha autorização para atravessar o Vale do Silêncio, o tal e parque gigante que divide os Olivais Sul dos Olivais Norte. Mas mal chegava a casa da escola, esperava ansiosamente pelo elevador que descesse do sexto andar até ao R/C para me levar a casa, o longínquo nono andar. Pegava na ‘bina’, metia-a no elevador e lá ía eu. Aos fins-de-semana ía mais à tarde, porque ao Sábado e Domingos havia sempre outros programas, mas nas férias da escola, esperava pacientemente (ou não tanto) pelas dez horas, hora às quais me deixavam descer e ir andar, e saía porta fora. Desde que voltasse a horas para almoçar não havia problema. Não tinha relógio, mas sabia quando tempo me demorava até determinado sítio e quando tempo precisava para estar em casa à uma. As horas das refeições em Portugal são sagradas.
No Algarve não sentia a necessidade de ter uma bicicleta. Caminhava para todo o lado, havia espaço e era-nos dado um grau de liberdade que em Lisboa era bastante menor. Não penso por Lisboa ser perigoso, simplesmente porque havia mais ruas com carros e o maior medo dos nossos pais ser o de nós não olharmos cinco vezes para a esquerda e cinco vezes para a direita antes de atravessarmos a estrada. Confesso que ainda hoje sou terrível a atravessar a estrada. Recentemente quando estive no Cairo, valeu-me essa atitude destemida, senão demorariamos meia-hora a atravessar a estrada. Não há semáforos ou se os há ninguém os respeita, não há vias definidas para os carros, talvez existam passadeiras, mas há que atravessar e já está. O segredo é colocarmo-nos à esquerda de alguém se os carros vierem da direita ou vice-versa.
Voltando à minha bicileta azul... marcou uma época. Não era o último modelo, não era a bicicleta da moda, nem sequer era da minha cor preferida, mas era minha. Ía muitas vezes à garagem da Renault ao final da minha rua pedir para encherem os pneus ou para consertarem um furo. Também ía muitas vezes a essa garagem pedir para encherem a bola de futebol com que jogávamos tarde após tarde após tarde. Mas esse é outro capítulo.
Não sei se por ter crescido e, de repente, os meus joelhos quase baterem no chão de cada vez que dava uma pedalada, mas era tempo para outra bicileta. A moda eram as BMX, muito antes da moda das bicicletas de montanha com mudanças. A minha era branca com as esponjas que protejem o guia e o ‘corpo’ da bicleta roxo e verde fluorescente. Não me recordo se herdei essa bicicleta ou se me foi oferecida. Esta bicicleta dava outro estatuto. Ainda para mais era branca com pormenores berrantes, gritava ‘olhem para mim na minha BMX’. A pressão para saltar rampas e andar só numa roda era maior, mas a pressão de não cair à frente dos meus amigos crescia em igual proporção. Essa altura foi provavelmente das primeiras vezes em que, sem um adulto me gritar ‘olha que cais’, pensei para mim mesma ‘saltou ou não salto? É que se salto e caio ainda me magoo’. Já está! Os adultos tinham sido bem sucedidos em incutir em mim o peso das consequências das minhas acções. O trabalho deles está feito! Admito que sim, pensei nas consequências, pensei na probabilidade de cair e enquanto me iriam doer os joelhos se caisse. Mas saltava à mesma. Tenho as nódoas negras nas canelas e nos joelhos para o provar. As maiores mazelas vieram das quedas de bicicleta e das aulas de Educação Física, quando a professora perguntava quem queria ir primeiro ‘Eu! Eu!’ e caía redonda fosse a saltar ao eixo no cavalinho ou a dar uma cambalhota atrás.
Hoje já não ando tanto de bicicleta como antes, mas sempre que vejo uma sinto-me como se tivesse oito anos outra vez. Livre, o mais livre que uma criança de oito anos se pode sentir.
24.01.2012
Há pessoas de quem é mais fácil gostar. Seja porque têm muito a ver connosco e, egocentricamente, gostamos disso ou seja porque são o nosso oposto e, como tal, transmitem-nos uma calma para a qual não descobrimos ainda o segredo. Há pessoas de quem é muito fácil gostar menos. Mas essas não importam agora.
Há uma pessoa de quem eu gosto muito. Tem traços de personalidade bastante definidos. Tem ‘personalidade’. É pequenina, mas as aparências iludem. Aliás pode-se dizer que é ‘palmo e meio de gente’. No outro dia ensinei-lhe o que era uma meia-dose, porque com certeza no decorrer da sua vida lhe vão chamar, como o fizerem (e fazem) a mim. Há que saber o significado das coisas para saber como reagir. Porque para pessoa como ela e, como eu, impulsivas há que medir bem a consequência dessa impulsividade. Meia-dose normalmente é digo de um modo carinhoso, portanto reagir com um sorriso será apropriado. A mim, alguém de quem gosto muito, chama-me matraquilha. Sou pequena e gosto de futebol, parece-me bastante apropriado.
A tal pessoa pequena sobre quem escrevo este texto espero que escute, em parte, aquilo que tanta gente lhe irá dizer, aconselhar, avisar, porque a sua natureza será a de ignorar, mas nem tudo está errado. Irá saber defender-se, como aliás já o sabe (eu própria o vi com os meus olhos), mas espero que saiba a diferença entre defender-se e atacar. Na tão apreciada gíria futebolística dizem que ‘a melhor defesa é o ataque’, mas nem todos nos querem atacar, há que escutar. Lê o que eu te digo, há que escutar.
Tu, como eu, fartas-te das coisas facilmente, perdes a paciência e queres tudo já. Tu é que sabes. Garanto-te de que há coisas pelas quais vale a pena esperar. Há pessoas pelas quais vale a pena esperar. E, espero que saibas, quando nada mais há a fazer ou quando devas continuar de sorriso cheio de esperança acreditando que sim, que ainda faz sentido essa espera. Garanto-te que não será fácil saber a diferença, senão sentindo-a com um coração aberto.
O meu olhar registra os teus passitos apressados, as tuas voltas de bicicleta de dois minutos quando decides que já não te apetece mais, a tua voz a mudar para mais doce porque te apetece uma goma, ‘só uma, vá lá só uma’ dizes tu (as duas sabemos que uma são duas e duas são três). Registra também o teu cruzar de braços indignado por qualquer coisa que para nós parece irrelevante, mas que para ti merece toda a nossa atenção. Todos nós já nos sentimos ignorados, mas quando crescemos o cruzar de braços ignorado vira um sorriso disfarçado. O meu conselho é que abuses desse cruzar de braços, porque quando tiveres mais meio metro ninguém te perdoará essa indignação. Abraça a indignação, o quereres mais, o impulso, mas nunca o faças com falta de educação ou de respeito. Ninguém perdoa uma falta de educação.
Quando te digo ‘até logo’, sinto que nunca acreditas em mim. Sinto que para ti ‘até logo’ significa muito tempo. Porque para ti o tempo não tem ainda significado. Não sabes o dia em que nasceste. Até podes saber, mas não tens noção se falta muito ou pouco tempo. Não sabes quando é Segunda-feira ou Sábado. Sabes, penso que por associações que hoje poderá ser Sábado, porque não foste à escola. Sabes que hoje é Terça-feira, porque tens o fato-de-treino vestido e é dia de ginástica. Por isso achaste tão estranho quando eu te disse que ía para o Algarve em Dezembro, ‘então mas Algarve não é só no Verão? Agora faz frio!’. Como se eu ir para o Algarve fosse a coisa mais ridícula do mundo. Desculpa se te confundi, mas com o tempo vais ver que muitas vezes me confundo a mim mesma também e, quem sabe, um dia serás tu a ajudar-me em decifrar as coisas.
Muitas vezes tento não me perder no modo como me convences de que a tua mãe disse que não fazia mal comer mais uma goma, apesar de faltarem apenas cinco minutos para o jantar. Jantar que vais dizer que adoras, mas que passados dois minutos afinal não te apetece. Não te preocupes, um dia irás comer mais do que eu. Há sempre um exemplo na família de quem não comia nada quando era pequena e olha hoje o que come. Na nossa família, todos sabemos quem serve de exemplo e, hoje em dia, quem lhe tira um esparregado tira-lhe tudo. Isso é suposto sossegar os teus pais, mas sinceramente não sei se resulta.
Confesso meia envergonhada que tento deliberadamente influenciar os teus gostos futebolísticos e musicais. Nasceste em Lisboa e, parece-me certo, que saibas já o que é uma Marcha. Não sei se tento apenas que gostes do que eu gosto para ter uma companheira de partidas, mas que escutes também outras músicas que não ‘A, B, C; 1, 2, 3’. Não sei se também por eu já saber o abecedário e não precisar de o reaprender cinquenta vezes por dia ou se realmente gostava que gostasses de, pelo menos, alguma música que eu escuto.
Escuta a música que quiseres, mas as palavras escuta as de quem te quer bem. E, depois, faz aquilo que tu quiseres. De coração aberto.
Quando aprenderes a ler, procura no dicionário a palavra ‘medo’ e lê a sua definição. Para que não te esqueças. E, depois, procura a palavra ‘coragem’, para que nunca lhe soltes a mão.
Nasceste no mês do sol. No mês das férias porque todos anseiam. Por isso, faz sempre da tua presença, da tua vida uma metáfora da alegria que esse mês representa para tanta gente. Uma metáfora não, uma hipérbole. Exagera na alegria, exagera no riso, exagera na felicidade.
Tu nunca irás saber o que é uma televisão a preto-e-branco e uma televisão com dois canais apenas parecer-te-á uma mentira. Vais dizer que exagero quando escrevo que em dez segundos te fartas de um desenho animado e queres outro. Mas agora é fácil, basta mudares de canal e tu já dominas o controlo remoto.
Às vezes dou por ti a rires-te muito de uma coisa só porque eu também me rio. Confesso que prolongo o riso para ver até quando aguentas esse terno e carinhoso ritual de imitação. Sei que essa imitação é um elogio e rires-te comigo significa que gostas muito de mim. Também eu de ti.
Muitas vezes discutem comigo por eu fazer coisas que não é suposto e, consequentemente, tu me copiares. Às vezes faço de propósito, outras vezes esqueço-me de que tens apenas meio palmo e eu já palmo e meio.
Eu olho à volta e às vezes não sei o que vejo. Olho à volta e ouço e tento ouvir, tento escutar. Nunca paro de tentar. Busco. E muitas vezes acho.
Tu terás também com certeza a capacidade de escutar. Eu sei que sim. Porque te vejo terna e calma enrolada no colo da tua avó. Ou porque te vejo sussurando que não podes mexer nas caixinhas porque a avó não deixa. Ou dizendo ao teu mano que os tachos são do avô. Isso é a prova de que tu escutas.
Os teus anos e dias agora estão baralhados, organizados apenas pela rotina da escola, das actividades extra-curriculares e das Sextas-feiras onde jantas sempre fora de casa.
Eu estou aqui a escrever também a tentar organizar os meus dias através desta carta que te escrevo.
Muitas vezes te dirão que as palavras leva-as o vento, mas estas estão aqui para sempre e sempre que as queiras ler.
O meu nome está também no teu e, como diz a canção, isso me envaidece.
Agora vou domir. Boa noite, dorme bem Joana.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
11.01.2012 01h15 Aeroporto de Heathrow
4a feira 11 de Janeiro de 2012 01h15 Londres Aeroporto de Heathrow Terminal 5.
A primeira parte da viagem até aqui foi feita desde Faro. Vôo anteontem 2a feira 9 de Janeiro às 8h05 até Londres. Aliás, antes disso a viagem começou a ser desenhada às seis da manhã no Aldeamento Planalto onde um táxi me esperava para me levar ao aeroporto de Faro. Estamos em Heathrow à espera do vôo das 06h20 que nos irá levar até Madrid onde fazemos escala para o Panamá. A razão de já estarmos no aeroporto? Monetária. Uma ida de Londres até ao aeroporto são £2.90 e um táxi £35. Não há metro à noite, portanto a única maneira de chegar até aqui é apanhando dois autocarros nocturnos (2 horas) ou apanhar um táxi. Não somos as únicas aqui. A maioria dorme, eu escrevo. Palpita-me que não faltará muito para também eu adormecer. Tenho despertador para as 04h30, porque a entrega de malas no check-in abre às 05h00. Uma rapariga três cadeiras ao lado ri, olhei e ri sozinha. Deve estar a ver um filme no computador. A maioria, como disse, dorme ajustando-se como pode estilo caracol nas cadeiras incómodas do Terminal 5. Lembro a todos que em Portugal há cadeiras estilo preguiçadeira com banquinho para os pés e tudo. Será um questão cultural, como sempre justifica a minha mãe? Só sei que chegarei ao Panamá com o rabo quadrado de tanto estar sentada. Comecei a ler o livro do José Luís Peixoto, ‘Abraço’. Desde que li duas linhas naquela livraria na Baixa sabia que ía gostar. Por isso pedi à minha tia que mo oferecesse pelo Natal. Obrigada tia. E gosto, gosto muito. Pelo menos as dez páginas que li no metro a caminho do aeroporto. A verdade é que acabei a viagem de quarenta cinco minutos de metro a pensar ‘Que rápida foi esta viagem!’. Se calhar li mais do que dez páginas.
Não quero escrever ‘apenas’ um diário de viagem, quero escrever o que me apetecer. As palavras aqui escritas serão conjuntos de sílabas de uns olhos meus. Se são poemas, prosas, datas, fotos isso não importa, tudo isso é irrelevante. O que conta são estes olhos meus e a tradução, seja em que género ou forma fôr, para palavras, uma duas ou cem até, desse ver. Em Portugal diz-se que não há horários para nada, mas foi na Gâmbia que senti pela primeira vez o real significado dessas palavras. Não há realmente horários para nada, o que para quem está de férias é muito relaxante. Quer dizer pelo menos para uma pessoa como eu. Na Gâmbia, ‘No Problem!’ e um sorriso largo, eram as palavras e e as imagens mais ouvidas. As imagens também se ouvem, um sorriso largo cria um riso, um mar revolto cria um splash, uma criança sem sapatos ou sequer chinelos cria um choro. Há coisas que chamam mais a atenção de umas pessoas do que outras, e a mim ver miúdos na rua sem calçado confesso que me faz confusão. Acredito que todas as crianças deviam ter o que calçar. Deviam até puder escolher se hoje lhes apetece calçar uns sapatos ou uns chinelos de meter no dedo. Se calhar por, desde pequena, os meus pais sempre terem insistido tanto comigo para andar sempre calçada e eu recusar com uma convicção que só as crianças de 5 anos têm. ‘Filipa, vai calçar os chinelos’, ‘Filipa, andas descalça, depois diz que te constipas’. Hoje a cena repete-se com a minha sobrinha Joana. Já muito convicta e ainda só tem 4 anos e meio. Agora insistem comigo para andar calçada não por mim, mas por ela. ‘Calça-te Filipa, porque se a tua sobrinha te vê assim quer andar descalça também’. ‘Filipa é Inverno, não andes de chinelos senão a tua sobrinha também quer’. Mudam-se os tempos, mas de uma maneira ou outra há que andar calçado e bem calçadinho. Com a meia a condizer com a camisola, insiste a minha mãe numa batalha que nunca entendi a razão de a travar. Para não haver chatices, há um ano atrás tomei a, brilhante digo eu, decisão de comprar apenas meias pretas e cinzentas escuras. Naquele mistério que é quando se tira a roupa da máquina de lavar roupa sempre e há uma meia que desapareceu sabe-se lá para onde, assim não há problemas. As meias são da mesma cor, quem é que vai saber se as meias são iguais? Como diz a minha amiga Teresa, há que simplificar a vida. E, eu como boa ouvinte que sou, levo isso muito à letra. Até na compra de meias. Cada pessoa que ler isto e, a partir de agora, sentindo-se inspirada e adoptar a compra de meias de apenas uma cor deve-me 1€ para eu comprar una cervezita no país em que estiver. Combinado?
Cidade do Panamá é a capital do Panamá. Panamá, Panamá… há o canal e…?
COLOCAR MAPA DO PANAMÁ
A verdade é que ainda não sei muito. Vos direi quando lá chegar. Em prosa, relato ou poema é impossível de decidir até chegar lá. Ainda se lembram quantos vôos faltam? Vamos recapitular… Faro-Londres: Já está!; Londres-Madrid e Madrid-Cidade do Panamá.
‘Sai um poema
amolecido pelo tempo de espera
sentada e enternecida
por um lugar que leva
sempre
alguém a ver outrém.
Que tranquilidade.
Surpreendente talvez
para alguém como eu
que não gosta de estar
onde os pés não tocam a terra.
Há sempre beleza
nos diferente acertos dos ponteiro
de qualquer relógio
e, a beleza, que vejo agora
é essa. Tranquila e surpreendente.
Assim mesmo, tudo num só parágrafo.’
Vou tentar dormir um bocadinho, mas primeiro vou acabar de comer o meu bocadillo de jamón y tortilla. Que rico está!
domingo, 8 de janeiro de 2012
Algarve 08.01.2012
sereno
a ria
o mar.
Pode esconder coisas
que o Verão disfarça
mas é assim.